Autor: Bruno B. Cal
Indubitavelmente, poucas palavras expressam um significado tão supostamente claro e preciso como o termo ‘’desenvolvimento’’. Numa perspectiva abrangente, entende-se o desenvolvimento como o conjunto de políticas socioeconômicas destinadas ao bem comum.
Portanto, consideramos neste ensaio a ideologia do desenvolvimento em debate, buscando estabelecer alguns de seus limites e utopias.

Críticas à ideologia do desenvolvimento
Todavia, naturalizado pelo senso comum, raramente questionamos os limites desse quimérico conceito. E quando fazemos, ignoramos que o desenvolvimento atua, na realidade, como uma ideologia que nos assola cotidianamente.
Nesse sentido, abordar o desenvolvimento em perspectiva universal — ou mesmo estritamente econômica — é tratar da expansão do próprio modo de produção capitalista. Como aponta Marx em O Capital, embora impulsione expressivos avanços técnicos, esse processo também concentra capital e gera um exército industrial de reserva.
Portanto, a ‘ideologia do desenvolvimento’ falha em refletir a totalidade social, ocultando as contradições intrínsecas à luta de classes. Consequentemente, como toda e qualquer ideologia, deve ser combatida e superada, fato esse que exige antes de mais nada, a sua devida contextualização histórica. No entanto, quais seriam as suas gêneses histórico sociais?

Antecedentes históricos
O Prof. Dr. Fernando Correa Prado aponta que as raízes desse arcabouço ideológico remontam ao final da II Guerra e à criação do Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Somando a estas circunstâncias, insere-se e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) e a estruturação do sistema monetário por Bretton Woods.
Apesar dessas raízes, tal ideologia atingiu seu zênite apenas com o discurso do presidente estadunidense Henry Truman em 20 de janeiro de 1949. Proferido no início da Guerra Fria, o pronunciamento declarou verdadeira guerra ao socialismo, estigmatizando-o como inimigo da liberdade

E a ‘economia do desenvolvimento’?
Assim, como estratégia de combate ao comunismo, Truman estabelece a dicotomia entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Estes últimos, fundamentalmente, definidos pela debilidade ou total ausência de sua indústria.
Portanto, para conter a expansão socialista, constituiu-se um aparato ideológico e institucional destinado a promover o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos, processo então intrinsecamente atrelado à industrialização.
Nesse contexto, também surge uma nova área do conhecimento intitulada ‘economia do desenvolvimento’, a qual os intelectuais europeus e norte-americanos Arthur Lewis, Paul Rosenstein Rodan, Ragnar Nurske, Colin Clark, Herbert Frankel e, possivelmente o mais importante, Walt Whitman Rostow representaram, dentre outros.

Crescimento econômico e subdesenvolvimento
De forma geral, tais autores associariam o processo de desenvolvimento com a noção de crescimento econômico e, em casos mais extremos, também o vinculariam a um suposto processo evolutivo, no qual interpretariam o subdesenvolvimento enquanto um ‘estágio’ do desenvolvimento e, portanto, passível de superação.
Para tanto, um dos requisitos seria justamente o maior alinhamento às potências hegemônicas da época – em especial, os Estados Unidos. Contudo, em nenhum momento esses autores analisaram devidamente as especificidades dos países subdesenvolvidos com o rigor necessário.
Apesar de todo o mundo subdesenvolvido não ter seguido tal ideologia à risca – e, neste caso, a Comissão Econômica da América Latina e Caribe (Cepal) é o melhor exemplo, pois ela forneceu análises brilhantes acerca da nossa essencialidade latino-americana –, essa vertente influenciou e influencia demasiadamente não somente o pensamento econômico, como também a nossa própria concepção de desenvolvimento.

E o que dizem os povos tradicionais?
Todavia, o que a mesma realiza, em largos traços, é justamente aprofundar a nossa dependência e exploração. Ademais, esses teóricos [ou a academia] nunca ouviram ou debateram a contento ou como se deveria as cosmovisões dos povos originários e demais povos tradicionais – completamente opostas e antagônicas às dinâmicas capitalistas.
Contudo, de fato, existiria uma oposição a tal lógica? Tais comunidades realmente poderiam auxiliar-nos a pensar em outras alternativas? Para tanto, nos próximos textos, nos aprofundaremos no conceito e significado do Bem Viver e em como podemos utilizá-lo como uma ferramenta de combate e resistência a estes tempos de barbárie contemporânea.