Autor: Therbio Felipe M. Cezar
Estimo, particularmente, que razão, emoção e intuição são partes de toda a experiência que atrela o sentir e o ato de conhecer.
Não se pode separar uma da outra, porque são constituintes da mesma unidade: o sentir. Por este motivo, o ato de conhecer também está intimamente ligado à subjetividade de todos nós, seres em processo humano. E, assim sendo, também se interliga às nossas manifestações (epifanias), quando nos damos conta do significado ou do sentido do que fazemos, do que produzimos, conhecemos e descobrimos.

Razão e Emoção se unem para dar sentido ao conhecer
Assim sendo, o conhecimento não está associado, tão somente, à mera equação do mundo de forma científica. Ver o mundo das coisas e as coisas do mundo por detrás de uma formulação metodológica e fria é como se tudo o que há coubesse, laconicamente, em uma régua, de maneira linear e uniforme, como se fosse possível. Que ironia!
Valho-me de um exemplo bastante particular para buscar ilustrar o que proponho.
Tenho por costume, degustar um bom vinho do Porto, sempre que se faz possível, seja na solitude ou na fartura de boa companhia. Para qualquer outra pessoa, imagino, este hábito poderia ser compreendido através de inúmeras inferências, principalmente, se a observação vier de pessoas que não conhecem ou não gostam de vinho do Porto. E antecipo, não faço aqui nenhuma apologia ao mesmo.

O sentir potencializa o conhecer
Enquanto uso da razão, escolho o Porto por se tratar de um vinho licoroso e de personalidade, feito da fermentação tardia de uvas portuguesas (em sua maioria, do cultivar da variedade Touriga Nacional), constituindo-se em um exemplar único da bebida considerada, pelo senso comum, a mais sábia entre todas.
Escolho também, ainda valendo-me da razão tão somente, o vinho do Porto por ser degustado em doses pequenas, porém. Ainda que em pequena quantidade, tal iguaria contém determinada concentração de flavonóides e fenóis em sua composição, além de taninos habilmente amadurecidos quando este vinho segue por determinado tempo em barris de carvalho, nas caves da linda cidade do Porto.
A razão me diz, ainda, que as propriedades químico-físicas desta variedade de vinho dispõem a meu favor um arsenal de substâncias. Elas auxiliam na eliminação de toxinas e radicais livres presentes em meu organismo, além de proporcionar às minhas artérias a mitigação de gordura resiliente.

O conhecer se fixa enquanto memória por meio do que se sente sobre o que se sabe
Por sua vez, quando uso da emoção sempre ao saborear uma pequena copa deste vinho, relembro os passeios que fiz por Gaia. Lembro das caminhadas pela cidade do Porto, das visitas às caves e adegas, além dos bons conselhos de enólogos e enófilos, a cada momento de degustação. O sentir e o ato de conhecer promovem que o experimentado, o vivido, o saboreado, enfim, se transformem em saber.
Lembro-me do vento frio, quase um mistral, da arquitetura das construções típicas, do cheiro das coisas que carregam o tempo e os silêncios, da cor da cidade e das vestes de meus anfitriões.
Ao usar da emoção, qualifico e me identifico com este vinho porque difere de todos os outros. Faço isto, por tudo aquilo a que me remete, pela sensação de eternidade na suavidade e maciez de seu gosto. É um vinho que me leva, imaginariamente, a tudo o que me faz falta. É um vinho pleno de saudades boas, por quê não?
E, finalmente, ao usar da emoção atribuo a este vinho uma sensação plena de memória. Relembro o que vivi e aquilo que ouvi sobre Portugal, terra da gente da minha terra. O sabor do vinho me leva de volta a Portugal, onde permaneço e retorno a cada novo degustar do vinho do Porto.
Então, emocionalmente, o Vinho do Porto me faz pertencer a Portugal de alguma forma. Mais uma vez, o sentir e o ato de conhecer se complementam, intrinsecamente.
Portanto, neste caso, quando me valho da intuição, recorro a meu repertório de vida. Vou atrelando o que vivo aos conhecimentos acessórios sobre vinificação e viticultura. Vou associando o paladar àquilo ao qual este vinho me remete.

O sentir transforma o ato de conhecer
Associo em minha mente a lusofonia, aos falares e cantares que se justificam e se contrapõem. Em minha imaginação, surgem as delicadas frutas vermelhas e um pouco de aroma de bom tabaco ao fundo. Há música nos ares de minha alma, há fado, há cantiga e sabe-se lá o quanto mais há.
Tento respirar profundo antes de sorver cada gole, para que este gesto me avive todos os sentidos e me permita saber mais sobre o que sinto, além de me permitir sentir mais sobre o que vou sabendo a cada segundo. O sentir transforma o ato de conhecer.
A isto atribuo um jogo pessoal: saber sobre o que sinto e sentir sobre o que julgo saber.
O conhecimento, portanto, como tento aqui refletir, necessita do brilho de uma ideia luminosa. Ela irá olhar os fatos, dados e informações, diferente, intuitiva, plena de inferências e correlações. O que fazemos com o uso da ciência é racionalizar o mundo que vamos conhecendo de forma emotivamente.
Seria oportuno pensar que, ao permitir associar-se o sentir ao conhecer possamos ir muito além do que o pragmatismo nos sugere? Vamos tentar?
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